Scott Pilgrim Contra o Mundo: eu cedi

Claro que se trata de um delay enoooorme (este título foi lançado em março deste ano), mas hoje sou uma pessoa que, por falta de patrocínio de uma antiga coluna que me deu uma biblioteca gigante de quadrinhos, seleciono mais criteriosamente minha cota de HQs do mês. Mas quando digitei a senha do cartão de crédito para adquirir minha edição nacional de Scott Pilgrim Contra o Mundo, aquilo não era falta de dinheiro. Era o começo do fim de uma birra.
Sim, eu não gostava desse rapaz, o Scott. Mas, claro, não conhecia o cara, minha impressão negativa dele era totalmente pautada por uma síndrome monotemática que acometeu o Twitter quando começaram a ser anunciadas as primeiras notícias do filme adaptado dos quadrinhos. Peguei abuso do “buzz”. No entanto, como toda taurina com ascendente em Gêmeos e um triângulo vermelho no mapa astral, sou birrenta, porém volúvel. E agora que acabo de fechar a última página desse primeiro volume de Scott Pilgrim, estou, posso dizer, apegada.
Scott não é exatamente um bacanudo, supimpa, o tampa de Crush. Mas seu criador, Bryan Lee O’Malley, é “o cara” que consegue transformar seu protagonista em um adorável babaca, quase um espelho daquilo que, um dia, fomos (eu disse “fomos”). Numa saga sobre um rapaz e seus problemas afetivos, ele consegue dar um ar mais profissional àquele hipertexto que, não sei se vocês sabem, já são meio que lugar comum na literatura infantil de franquias como O Capitão Cueca (1997), Judy Moody (2002) e vários outros que li (sobrinhos, claro).
Porém, o que O’Malley faz aqui é diversão para menino (e menina) grande. Indies, gamers, geeks e qualquer um que um dia já teve o coração partido. Ou seja, mais ou menos um público-alvo bem maior que a torcida do Flamengo.
Na “obra de sua vida” como ele faz questão de frisar na pequena biografia de última página, O’Malley faz da banalidade de jovens paixões se transformar em uma épica batalha com a narrativa de um game. No meio disso, ele sabe criar um cenário cheio de referências pops que, definitivamente, não parecem ter sido jogadas como sal espalhado pela panela do ovo mexido. O cara entende quais os momentos de brincar com o que os quadrinhos podem oferecer e quais os momentos de fazer os diálogos e a edição de cenas fluirem, como se ele nunca de fato tivesse feito qualquer rascunho antes, como se a ideia tivesse nascido pronta em sua cabeça. É sempre delicioso ler uma história assim. Meticulosamente descuidada.
Ah, e se você realmente quer saber a sinopse do babado, aí vai: Scott divide uma minúscula casa (e a cama) com um amigo gay chamado Wallace e faz parte de uma banda de rock indie em Toronto, Canadá, onde, por sinal, existem várias bandas sensacionais, mas essa é outra história. Quando conhecemos Scott, ele está começando o que parece ser um namoro de portão com uma garota do colegial (leia-se, bem mais nova que ele). Tudo vai ok na vida medíocre e preguiçosa de nosso herói até que ele conhece Ramona Flowers, uma garota “cool” que, mais tarde, descobrimos ser “kool” and the gang. Isso porque ela não é um pacote unitário. Ramona é como aquelas promoções do 1406 da Polishop. Vem com assessórios completamente dispensáveis. Em outras palavras: seus ex-namorados do MAL.
Não dá pra adiantar muito além disso, exceto pelo fato de que essa história em quadrinhos traz a melhor coreografia EVER que eu gostaria muito de ver na adaptação cinematográfica. Em se falando nela, o filme teve sua estreia no Brasil adiada de 15 de outubro para alguma data desconhecida de novembro. O que significa que podemos ver Pilgrim nos cinemas apenas em 2011. A lembrar o enorme delay da estreia de Kick-Ass no Brasil. Aliás, próximo texto, Kick-Ass.
Quanto à edição da Cia. das Letras, ela é correta, justa e honesta. Segue o padrão de tamanho da publicação original e ajuda o bolso do leitor quando compila os dois primeiros volumes da história em um só livro (o que dificulta só um pouquinho na leitura, para aqueles quem adoram abrir as páginas em 180º). Muito bom trabalho do editor @andre_conti e tradução muito bem sacada de @ericoassis.
Melhores frases:
Scott, você é uma joia de pessoa. Ah, desculpa. Quis dizer a escória de pessoa
Uma chinezinha de dezessete anos veio voando nos elevadores e a Ramona se defendeu com um pedaço de arte corporativa, e então elas lutaram alguns minutos e aí a menina foi embora.
Abaixo, o trailer que mais amo do filme:
O Fótografo 3: a imagem é dele, a despedida é nossa

É hora de cobrir a lente e se despir da máquina que prende o fotógrafo com uma corda que, se não é umbilical, é memorial. Nos despedimos de Didier Lefèvre mais de três anos depois de sua morte, em janeiro de 2007. Lefèvre se despede de seu relacionamento com o Afeganistão na edição de O Fotógrafo 3, capa dura, título verde floresta em cima da foto cinza deserto de dois jovens e seus brinquedos: uma AK-47 e uma espingarda. O álbum, que chega às livrarias com dois anos de atraso em relação ao calendário inicial da Conrad Editora, baixa a cortina de uma jornada que começa como uma aventura e se fecha como um documento jornalístico em todos os significados que o termo “jornalístico” encerra: interlocutor, verdadeiro, narrativo e acima de tudo pessoal.
Lefèvre é o fotógrafo que em 1986 fez sua primeira viagem ao Afeganistão para acompanhar um grupo da organização Médicos Sem Fronteira (MSF) pelo país que há sete anos sobrevivia à invasão de tropas da ex-União Soviética. A história conta que, depois daquela primeira visita, feita quando ele ainda tinha 28 anos de idade, o fotógrafo criou com a região uma ligação do tipo ponto e vírgula, com jornadas que sempre terminavam como capítulos de um livro que nunca ousaria dizer adeus. Mas disse, porque se despedir é preciso. Portanto, anos depois daquela primeira viagem ao Afeganistão, podemos ter em mãos os três volumes de um registro quadrinizado pelas fotos de Lefèvre e pelos desenhos de Emmanuel Guibert, sem deixar de mencionar o design muito bem projetado de Frédéric Lemercier, o homem que costura fotos e desenhos com a habilidade de quem sabe contar uma boa história.
Se no primeiro álbum nos impressionamos com aquela pouco usual paisagem em sua forma e conteúdo – não é todo dia que você lê uma história em quadrinhos em registros que deixam de ser figurativos para se exprimirem, de fato, reais -, e fomos apresentados a uma paisagem humana que costumamos negligenciar, no segundo desviamos um pouco o olhar para fotos que deixaram a poesia das montanhas de lado e nos apresentaram ao cenário de feridas que, mesmo esperadas, disparam sempre um sinal de alerta em nossa ideia de que o mundo é um enseada.
No terceiro e último livro, Lefèvre se cansa. Da viagem, do cavalo, de si mesmo e do homem. Da viagem de volta ao Paquistão, das pequenas corrupções, das grandes teimosias em andar solo por um terreno estrangeiro. Apenas para, no fim de tudo, ter vontade de recomeçar. É possivelmente o álbum com menos fotos dos três livros e, por isso mesmo, nos dá a dimensão do cansaço que se abate sobre o narrador dessa história cujo único protagonista é o ponto de vista do leitor. Ou como diria Jonathan Klein, da Getty Images: “Não é o fotógrafo quem faz a foto, é você. Você dá a cada imagem seus próprios valores, crenças e como resultado disso a imagem ressoa na gente”.
Em O Fotógrafo, a trilogia, pudemos perceber coisas que antes não passavam diante de nossas até hoje limitadas fronteiras narrativas e, mais do que qualquer outra coisa, entendemos em uma poesia sem métricas que se cada foto conta uma história, juntas essas imagens nos contam também uma história coletiva, que começa com registros, se ergue com memórias e se descansa nos significados que damos a tudo que vemos.
Preço do livro: R$ 46
Abaixo, o vídeo que a Conrad fez para promover o título:
Nunca acredite na ingenuidade de um post-it
Deadline, por Bang-yao Liu:
Banksy ataca mais uma vez
Banksy x Bristol Museum. Esse cara é ou não é um gênio?
ps.: me comovi com o envelhecimento do Piu Piu…
O Chinês Americano, por Gene Luen Yang
Em uma leitura rápida e pouco atenta à linguagem dos recursos gráficos, O Chinês Americano pode ser apenas mais uma história em quadrinhos sobre um jovem adolescente. Tente desacelerar entre uma página e outra e o que se expõe em páginas de largas bordas brancas emoldurando os desenhos cartunizados de Gene Luen Yang é uma obra com total domínio da arte de contar uma história que, não por um acaso, é escrita em quadrinhos. E quando uma obra tem total domínio sobre a arte da narração? Quando você é dominado. E não liga pra isso.
Lembro que, no ano passado, quando primeiro vi este livro quase escondido nas prateleiras da Livraria Cultura, pedi um café. Um cookie. E outro café. A leitura foi, digamos, sedenta e faminta. Se tratava, claro, da edição original da obra, ainda em inglês. Todas as referências anteriores que eu tinha – a indicação ao National Book Award, o prêmio do Michael L. Printz Award e tudo mais que fazia menção às virtudes “literárias” deste livro – me ajudaram a ir desvelando a trama com uma adicional curiosidade de quem precisa justificar – ou implicantemente desmentir – toda a unanimidade criada em torno desta história.
E agora que o livro chega ao Brasil em edição nacional com o recém-lançado selo Quadrinhos da Cia, da Companhia das Letras, é tempo de esclarecer: me rendi à unanimidade.
Sarah Palin e Ahmadinejad: não se assustem
Uma ronda política: a IDW colocou no Newsarama uma preview dos quadrinhos com Barack Obama que ganhou o nome “The Road to the White House” (O Caminho para a Casa Branca). A melhor parte? Sarah Palin, claro! Nunca é demais ver o quão inacreditável foi aquela campanha republicana.
Quanto às eleições no Irã, preciso eu falar algo além disso?
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A autoria é do cartunista iraniano Nikahang Kowsar. Eu dê-duvida que ele não ganhe zilhões de prêmios em salões de humor com essa charge. E quem vai entregar esses prêmios é Ahmadinejad, naturalmente.
Rock Band dos Beatles
Eu. Não. Vejo. A. Hora. De. Ter. Isso. Nas. Minhas. Mãos.
Que gráficos absurdos de bons! O Guitar Hero está na Idade da Pedra na frente disso…e olha que eu já joguei o último do Aerosmith…
Copacabana, por Lobo e Odyr

Ninguém passa incólume por Copacabana. Sua arquitetura de amontoamentos emocionais é expressão maior de um lugar de tempo e espaço próprios, que se distrai apenas em costurar a vida privada-e-pública daquelas janelas e pessoas coladinhas, todas dispostas a contar seus segredos no segundo copo americano de cerveja. É nesse metro quadrado nacional mais rico em personagens multidimensionais que um gaúcho (Odyr) e um quase-gaúcho (Lobo) estacionaram seu olhar para criar um álbum em quadrinhos que, tanto por tema quanto por estética, consegue captar esse ritmo de conflitos de meia-luz dessa condensada nação rodrigueana no mais famoso bairro carioca.
Saiba mais sobre esse novo lançamento da Desiderata…
Vida longa e próspera ao Zuper!

o big bang e zuper ali no canto direito
Mudei. De cidade, plataforma de blog e de meio, mas não de mensagem (ou não seria uma coisa a outra?). E o que antes era publicado semanalmente em uma coluna do Jornal do Commercio, passa agora a ser postado diariamente neste blog que vos fala. Quadrinhos, minha queda, Cinema, minha paixão, Música, minha obsessão e assuntos afins (preciso salientar que assuntos afins são meu ponto fraco) agora em textos sem centimetragem…se é que alguém ainda sabe o que isso significa.
Zuper pode até ser mais um grão de milho que estoura neste grande saco de pipoca que é a web. Mas posso garantir é que aqui esse grão vai crescer amanteigado e com sal a gosto (a meu gosto, claro).
E para quem acompanhava o Zuper desde 2005 até o começo deste ano, nos tempos em que ele tinha aquele visual Roy Lichtenstein, uma tardia prestação de contas: gente, o blog costumava ser editado pelo Movable Type e, numa dessas ocasiões da vida em que a gente aperta o botão errado, terminei perdendo todos os posts antigos e não consegui transferir os mesmos aqui pro Wordpress. Águas passadas, enfim. Vai que era uma forma simbólica de dizer que começar do zero era preciso.
