O sol quadrado e o café da manhã
A Conrad vai lançar ainda este mês um livro de um cara chamado Kazuichi Hanawa. A história é fantástica, mas para falar dela preciso de um prólogo:
Estava lá o Frédéric Boilet no FIQ de bêagá quando consegui falar com ele por telefone. Ou melhor, falar com o tradutor dele, já que minhas habilidades com a língua francesa ainda são reduzidas a pronunciar o elenco da mostra Varilux. Pois sim, Boilet, que é quadrinista francês, mas mora no Japão há alguns anos, me disse que o que há de mais impressionante na narrativa nipônica é a arte de contar e recontar o cotidiano. Ok, quem lê mangá sabe disso. O fato é que ficou lá na cabeça como era até irônico um cara que veio do país da nouvelle vague, que tanto se apropriava do cotidiano, perceber as pérolas do dia-a-dia numa ilhazinha lá no Pacífico. Aliás, quem soube da passagem de Boilet no Brasil ficou sabendo tambem que ele é o criador de um manifesto chamado Nouvelle Mangá. Mas isso são outros 500.
Voltando a Kazuichi Hanawa. É ele o autor do livro Na Prisão, que chega agora no fim do mês às livrarias. Além do Japão, o álbum já foi editado na Itália, França, Estados Unidos, enfim, já teve sua repercussão internacional. Hanawa conta a sua história quando esta esteve cerrada no tempo. Eram meados dos anos 90 e eis que o já importante artista e quadrinista é preso por porte ilegal de armas (lá no Japão a coisa funciona assim). Ele é condenado a três anos em regime fechado e, durante esse tempo, se corresponde em amenidades com o crítico de mangá Tomhide Kure. Dá pra deduzir o resto da história: Hanawa sai da prisão e escreve um álbum de quadrinhos sobre seu encarceramento. Bingo. Mas se você acha que ele fez uma daquelas histórias de denúncia, rigidez e conflitos internos, pode zerar sua cartela, seu jogo está errado. Hanawa potencializou o cotidiano que tanto surpreendeu Boilet. E fez um conto sobre a comida dentro da prisão (há quem diga que ele criou um roteiro gastronômico), falou sobre as freqüentes vontade de fumar, sobre os livros que lia na penitenciária e todas as demais ameninades que já eram trocadas por ele quando se correspondia com Tomhide Kure. Não é preciso muito mais para dizer que Na Prisão chocou muita gente justamente por sua despreocupação em criar dramas épicos a partir de dramas pessoais. Mas não irei me alongar nisso, deixo apenas uma parte da introdução do livro escrita pelo mesmo Tomhide Kure:
"O que se observa aqui é o apego a um registro minucioso e a confissão de um estado emocional no mínimo estranho, que não é nem de arrependimento, nem de redenção. Esses eram aspectos que não existiam em nenhum dos registros de vida carcerária conhecidos até então. Os desenhos de Hanawa sempre foram detalhados e belos, comparáveis aos desenhos à caneta de Kasho Takahata e Hikozo Ito. Essa técnica do uso da pena reproduz minuciosamente o ambiente atrás dos muros da prisão. Apesar de todas as ilustrações terem sido feitas com base em sua memória, uma vez que lá dentro não era permitido desenhar, elas são assustadoramente reais. Penso que o poder dos desenhos de Hanawa é sustentado por uma fantástica memória visual."
a propósito: quem quiser saber um pouco mais sobre Hanawa, tem uma entrevista com ele em espanhol aqui. Apesar de curta, é bem legal.









