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Porto Musical - Trocar para ser

Hermano Vianna foi pra falar sobre o Overmundo, mas do lado de fora do Teatro Apolo, conversou um pouco sobre outro assunto bastante familiar às suas pesquisas: políticas de diversidade cultural. É tempo de tocar novamente no assunto, até porque, eis que estamos novamente às vésperas de mais um Carnaval "multicultural":

O EU E O OUTRO - "A palavra diversidade é usada tanto hoje que perde até seu significado. Acho que o problema é que o multiculturalismo, tal como ele é entendido nos Estados Unidos por exemplo, é de criar um mundo de guetos, em que você defende o que é seu. Fazendo uma análise da história do Rio de Janeiro, por exemplo, a produção cultural da cidade envolveu trocas entre mundos diferentes.

O livro que escrevi sobre o samba (O Mistério do Samba) é na verdade uma ode às trocas culturais, ao contato entre diferentes. Fico muito irritado quando dizem que só gay pode falar de gay, só negro pode falar de negro, só índio pode falar de índio. É muito enriquecedor quando você ouve pessoas que não são da sua cultura falando sobre sua cultura. Acho que sem mistura o mundo não anda. Separar atravanca as coisas.

Ao mesmo tempo, entendo quando o Racionais, por exemplo, aparece no Brasil com um discurso de valorização de um determinado aspecto da produção cultural brasileira, e coloca questões que não estavam no debate. Questões que, de certo modo, se você for analisar, são separatistas. É como se eles falassem "O Brasil até hoje valorizou a mestiçagem, mas a valorização da mestiçagem foi usada para o domínio dos brancos e para a guetificação dos negros e das favelas".

Mas não acho que a solução não é descartar a mestiçagem. A mestiçagem talvez tenha sido a proposta mais radical da cultura brasileira. Quando numa época em que ser mestiço era considerado um problema, Gilberto Freyre inverteu isso e criou esse orgulho de ser um povo mestiço. Isso nos valoriza demais, acho que é uma das coisas mais radicais que o Brasil já propôs pro mundo."

HISTÓRIA EM MOVIMENTO - Citando o historiador Paul Veyne - "Havia tantos vasos gregos no Mediterrâneo quanto hoje há garrafas de Coca-Cola nos oceanos do planeta hoje" - Vianna ainda falou o seguinte: "Não foi porque a Grécia teve o predomínio cultural no mundo mediterrâneo que as culturas mediterrâneas hoje são menos diversificadas. A forma como as pessoas usam Coca-Cola aqui no Brasil e na Tailândia será sempre diferente. A pessoa que confia em sua cultura não precisa se defender de nada externo, como se faz na França, por exemplo."

NOVO PARADIGMA? "Acho que as pessoas já deixaram de esperar que a grande gravadora venha salvá-las, e criaram o funk no Rio de Janeiro, o brega no Pará que, por sua vez, influenciou diretamente a criação de um tecnobrega aqui em Pernambuco. Esses canais de comunicação paralela estão sendo criados. A internet deu as ferramentas mais eficazes. Mas a gênesa da internet está nas pessoas formadas pela contracultura, pelo situasionismo francês em 68."

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