JORNAL DO COMMERCIO
Inferno de Truman Capote em quadrinhos
Publicado em 14.05.2007
Não faz muito tempo que o cinema viu o ator Philip Seymour Hoffman vestir Truman Capote, como se aquela roupa de escritor pedante e parasita lhe cabesse melhor que no próprio Capote. A história por trás de um dos livros mais importantes da literatura norte-americana surgiu então com uma indicação ao Oscar. A sangue frio se revelava como um livro ainda mais importante quando fora de suas páginas. E foi nesse caminho das palavras que Ande Parks, morador do Kansas, onde o crime narrado ocorreu, decidiu quadrinizar o inferno do escritor diante de sua obra.
Capote no Kansas (128 páginas, R$ 21,90), lançado agora pela Devir editora, é, como o título indica, um “livro ilustrado” sobre os bastidores de A sangue frio. Assim como no filme interpretado por Hoffman, o álbum em quadrinhos é um grande desenho de Truman em todos as expressões faciais que se abrem na seqüência da história: Truman vaidoso, Capote hostil, Truman assustado, Capote sozinho, Truman humano, Capote desumano, Truman amargurado e, finalmente, Capote ovacionado. As ilustrações do jovem Chris Samnee, aqui no seu primeiro trabalho em graphic novel, consegue condensar as idas e vindas do protagonista com um traço que se inspira claramente nos jogos de luz e sombra de clássicos noir.
Parks, que é mais conhecido por seu trabalho com o Arqueiro Verde, se usa de uma licença poética para criar um laço espiritual entre o escritor e a tragédia que, por si só, nunca parece ser suficiente para dar partida ao livro. A licença, neste caso, vem com uma amizade entre Capote e uma das filhas da família assassinada em novembro de 1959. Ao estabelecer uma cumplicidade entre essa menina (o espírito dela) e o escritor, Parks deixa seu personagem ainda mais vulnerável do que ele já era. Faz isso em nome de uma proposta que é clara desde a primeira página dos quadrinhos: a história aqui não é o assassinato e a vítima não é a família Clutter. Todos os papéis são interpretados por Capote.
O próprio Parks, em um pequeno texto publicado na última página do álbum, se confessa um pouco “culpado” por ter jogado fora personagens tão importantes como Harper Lee. “Eu a usei e descartei, conforme julguei necessário para meus propósitos”, escreve. Não precisava da explicação. Fica claro que a ninguém nesse contexto pode ser mais importante e interessante, que Truman Capote.
Tipo de história em quadrinhos que você lê sem conseguir parar o fluxo das páginas virando.