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Crítica do dia - cinema

Evan Allmighty.jpg
Noé reeditado em comédia
Publicado em 03.08.2007 - Jornal do Commercio

Carol Almeida
calmeida@jc.com.br

No princípio, era o poder. Agora, é o aquecimento global. E, no final, tudo não passa de uma grande sessão da tarde, cujas pretensas mensagens políticas servem de cenário insípido para uma comédia nos moldes clássicos de Hollywood: um homem que cumpre todos os padrões de normalidade se vê diante de uma situação esdrúxula e começa a viver como se numa fábula... bíblica.

Em 2003, foi com Jim Carrey em Todo Poderoso, quando o ator fazia um jornalista resmungão que, de repente, ganhava de presente do próprio Deus toda a administração do planeta por um dia. Agora, em A volta do Todo Poderoso, Steve Carell é um jornalista (deve haver uma explicação para essa predileção profissional) que larga tudo para seguir carreira política e, depois de uma oração ao pé da cama, recebe uma visita do grande Criador que, irônico como sempre, dá ao jovem deputado a missão de salvar parte dos Estados Unidos de um desastre ambiental.

Evan Baxter, casado, pai de três filhos e um mamão por excelência (assim se consegue chegar fácil ao Congresso) quer “mudar o mundo” e Deus resolve dar uma forcinha. Ele, um ser que em toda sua supremacia saca tudo de marketing, decide fazer de Baxter um moderno Noé, e manda o rapaz construir uma arca pois um grande dilúvio vem por aí e, claro, descobrimos que este será um fenômeno provocado por ela, sempre... a ganância política. Como Al Gore estava com agenda cheia, quem faz Deus, pela segunda vez, é Morgan Freeman, que parece não ter problemas em emprestar sua divindade a comédias de verão.

O filme é bobão, ingênuo, um combo pipoca e refrigerante para toda a família. Vale por Steve Carell, ator que nos Estados Unidos é mais conhecido pela série The office, esteve recentemente no excelente Pequena Miss Sunshine e é a grande aposta de Hollywood para o riso fácil. Sua piração quando começa a ser perseguido por meio mundo de bichos rende bons momentos. Morgan Freeman faz aquela cara de Morgan Freeman e só isso basta para todo mundo se convencer de que ele é realmente Deus. No mais, a fábula da Arca de Noé funciona apenas para aquecer a conta bancária dos estúdios de efeitos especiais, já que 177 espécies de animais aparecem juntas várias vezes.

Por falar em conta bancária, é preciso citar que o grande marketing do filme está em sua proposta “verde”. O release diz que as folhas de papel dos roteiros foram utilizadas frente e verso e que a equipe do filme recebeu bicicletas para se locomover até o set de filmagem. Só esqueceram de mandar desligar o ar-condicionado das salas de projeção.

Adendo: não saia do filme ao fim da última cena. Um clipe dos bastidores com todo mundo dançando Gonna make you sweat (mais conhecida como Everybody dance now), é melhor do que algumas piadas do roteiro.

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