Epiléptico - Review

A poesia dos monstros internos
Publicado em 11.08.2007 - Jornal do Commercio
Epiléptico, de David B., é uma obra-prima das artes gráficas, álbum que refaz a trajetória de uma família que, junta, sobrevive a uma doença
Carol Almeida
calmeida@jc.com.br
As palavras não costumam chegar até onde vão as imagens, assim como as imagens dificilmente alcançam até onde chega a imaginação. Quando algum desses fenômenos acontece, dá-se o nome de talento, um estágio bem próximo ao que conhecemos como arte. Afinal de contas, a arte em si só aparece quando o já citado talento consegue se manifestar a partir de um pensamento crítico, da reflexão e, mais importante que todo o resto, de uma consciência do homem diante dele mesmo. O francês David B. conhece todas essas etapas intuitivamente. Como poucos quadrinistas, ele conseguiu levar as palavras até as imagens e as imagens até a porta de sua memória pessoal. Se você aceita o convite parar entrar, poderá experimentar um dos mais belos – e terapêuticos – álbuns de quadrinhos desses últimos anos: Epiléptico.
Editado no Brasil pela Conrad, Epiléptico é um daqueles livros que se apresenta primeiro com seus anexos: melhor roteiro no Festival de Angoulême (2000), críticas sempre positivas da imprensa internacional, prêmio Ignatz de Artista Destaque para David B. em 2005, e assim se segue. Os certificados certamente sublinham a importância do álbum, mas nem mesmo eles conseguem dar conta das várias dimensões e qualidades que essa obra possui.
Epiléptico é literatura, cinema e artes plásticas. É quadrinhos, acima de tudo. É uma obra real de ficção. É auto-análise exposta em público. É um pedido de desculpa, confissão de pequenos crimes e uma redenção. A história de Pierre-François Beauchard, nome verdadeiro do autor, é tão verdadeira que comove, e comoção é hoje uma energia que nos desacostumamos a desprender. Ao contar sua história, o autor abre uma seqüência de lembranças que, certamente, o vestiram de tatuagens diversas, as mesmas que ele resolveu colocar no papel na forma de uma história em quadrinhos.
O autor é o narrador do livro. Seu relato começa nos anos 60, quando os homens começavam a romper o espaço sideral e sua própria idéia de humanidade. Hippies, sociedades macrobióticas, divãs e, no meio disso tudo, conflitos políticos. Esse é o cenário da infância de David B. e é nele que conhecemos Jean-Christophe, o irmão mais velho do autor, criança que brincava de ser ditador e sofria de epilepsia. A saga da família em busca da cura do primogênito é uma história de abdicação. De valores, de egoísmo e de auto-estima. A vida se move em torno de uma doença. A poesia aqui é a aquela que versa sobre monstros e fantasmas, todos eles personagens familiares ao narrador, hábil em brincar com seus bonecos de guerra e com o irmão, um menino que é simultaneamente vítima e inimigo, tolerância e raiva. De tudo isso nasce a compreensão e o amor entre todos na família.
Os conflitos são todos da perspectiva de uma criança. O recurso das metáforas infantis pode até ser uma solução óbvia para falar de uma história tão séria. Mas é preciso reconhecer que não são todos que conseguem fazer essa transfusão sem que se apele para lugares comuns. Mas lugar comum é, aqui, um território bem distante. O desenho de David B. leva a história para um mundo fantástico onde referências orientais – dragões, samurais e bichos lendários – interferem o tempo inteiro com a idéia de morte e vida, Yin e Yang, conceitos que desde muito cedo se formaram na cabeça do jovem Pierre. Aliás, vem dele ainda criança algumas das imagens publicadas aqui, salvas nos papéis que ele conseguiu guardar quando o drama de seu irmão passou a incorporar na dieta alimentar e filosófica de sua família.
Falando-se em família, é preciso destacar o papel dela dentro desse enredo. Família aqui é uma unidade e uma fragmentação. A história por trás do pai, da mãe, de cada um dos avós e mesmo dos bisavós guia o álbum como o dragão carrega no dorso seus heróis: orgulhosos e sempre olhando a cena do alto.
O distanciamento entre o autor e seu próprio personagem é sempre um movimento cauteloso, e em um momento específico do álbum, vemos David B. entrar nas páginas de Pierre. Essa quebra da narrativa deixa o leitor desarmado de seu próprio distanciamento com a narrativa. Mais forte do que isso somente o prefácio de Florence, a irmã mais nova da família. Sobre este, aqui vai um conselho: leia antes de começar a primeira página e depois que virar a última. São duas experiências distintas.
A propósito do autor, trata-se de um dos fundadores da editora L’Association, criada nos anos 90 por um grupo de quadrinhistas fora do eixo “mercadão”, como Cristophe Blain e Frédéric Boilet, ambos já publicados no Brasil pela mesma Conrad. Seu currículo guarda outras surpresas. Quem sabe elas podem estacionar na mão de mais editoras. Aliás, a notícia boa para os leitores é que o Epiléptico que acaba de ser publicado no Brasil é apenas o primeiro dos dois volumes que encerram a história. A saga de Jean-Christophe, dos monstros e guerreiros que o cercam, ainda tem muito a falar, mostrar e trocar.
» Epiléptico – David B., Conrad Editora. Tradutor: Idalina Lopes. Preço médio: R$ 44,90









