Zine desta segunda

Elegância e ironia em um desenho freudiano
Publicado em 13.08.2007 - Jornal do Commercio
Tempo livre é um luxo para poucos. Ralph Steadman faz parte dessa minoria. Depois de muitos anos no ramo dos cartuns políticos (publica desde 68), ele resolveu fugir para o interior da Inglaterra, onde ao lado de sua mulher Anna, vive hoje do vinho que fabrica e, claro, do vinho que bebe. São mais de 100 videiras abertas diante de sua janela. Acontece que Steadman, entre um parmesão e um tinto, sempre terá um carinho especial pela sua fiel companheira de guerra: a tinta preta.
Seus traços revelam mais do algumas taças extras poderiam denunciar: é ela, a tinta, a extremidade mais dinâmica do corpo desse artista, e pela maneira como ela se espalha pela página, entendemos se tratar aqui de um ser humano que, como o vinho, guarda complexidades que apenas um olhar (ou paladar) atento identifica. Mas é claro que para falar de Steadman ninguém precisa sair procurando seu perfil psíquico, afinal de contas, ele tem lá suas precauções com esse tipo de exposição. Prova maior disso está no livro do artista que é agora publicado no Brasil pela Ediouro: Sigmund Freud (R$ 54,90).
Em um tipo de biografia didática de Freud e da psicanálise por ele fundamentada, Steadman brinca com seu personagem, ora revelando curiosidades triviais do processo genial do pensamento freudiano, ora se aproveitando dos conceitos analíticos para narrar a história de quem as pensou. Steadman explica as diferenças entre os vários chistes trabalhados por Freud, bem como as diferentes relações que ele tinha com as pessoas próximas e, claro, com alguns pacientes. Para quem quer entender um pouco mais sobre o assunto, fantástico.
Agora, para aqueles que adoram degustar uma boa imagem, aí não tem para ninguém. Steadman desenha com elegância e improviso, com velocidade e paciência e, sobretudo, com senso de humor. Afinal de contas, para colocar Freud em ilustração é preciso saber tirar da teoria a ironia intrínseca a todo processo de auto-análise (porque, no fim das contas, toda obra é resultado de uma conversa particular entre o autor e suas idéias). O traço é às vezes bem delicado, cuidadoso em cada linha e, no mesmo desenho, adquire em alguns espaços um momento rude, meio rascunhado. São ilustrações que carregam as mesmas variações de temperamento e humor de qualquer pessoa normal... ou de qualquer bom vinho.









