Zine desta segunda

A filosofia em pílulas de lenta digestão
Publicado em 03.09.2007 - Jornal do Commercio
O nome de Laurence Gane é um mistério. Na Amazon, maior site de compras do mundo, ele é autor apenas de um livro. No Google, idem. Vamos então à pequena nota no fim do citado livro do qual ele é autor para saber mais: professor de filosofia em Londres. Essa, parece ser de fato sua primeira publicação fora do eixo acadêmico. Qual o segredo para, em sua primeira investida no mercado literário, conseguir ser traduzido em espanhol e, agora, em português?
É simples: escolha uma personalidade de difícil compreensão do público leitor padrão (e se você é professor de filosofia, as escolhas não cabem nas duas mãos), quebre sua biografia em pequenos pedaços, de fácil entendimento, e jogue muitas imagens no meio. Se possível, insira elementos das histórias em quadrinhos, como conversas em balões.
Pronto, está dada a fórmula básica de Apresentando Nietzsche (R$ 34,90), livro que foi lançado recentemente no Brasil pela Relume Dumará, uma das parceiras da Ediouro. Os méritos de Laurence Gane são também os méritos de seus “colegas de trabalho”: Nietzsche e Piero. Respectivamente, uma das difíceis figuras do pensamento moderno e o ilustrador que desenha nesta edição. Segundo, Gane acertou na divisão do livro em tópicos, como Nietzsche e a revolução anti-darwiniana, a hipocrisia virtuosa, o espírito livre, a Alemanha nazista, a ética do nobre, do escravo, o bem, o mal. Pequenos textos tentam dar conta desses amplos campos de discussão.
É preciso pontuar que essas decisões editoriais – que são homogêneas em uma coleção com vários outros nomes – ainda não conseguem estirar Nietzsche na mesa como uma massa uniforme – porque talvez essa seja uma missão impossível. O livro termina refletindo um pouco essa estrutura cheia de camadas do pensamento e, em vários momentos, se torna confusa e não satisfaz nem aqueles interessados em uma leitura crítica nietzscheniana, nem os que estão ali para aprender o bê-a-bá de suas idéias.
De qualquer maneira, as ilustrações de Piero, ilustrador e designer gráfico inglês, para a figura já naturalmente caricata do filósofo alemão compensam muitas vezes o leitor de suas incertezas: Nietzsche de Cristo, Nietzsche pelos traços cubistas de Picasso, Nietzsche vestido de Zaratustra, seu personagem mais famoso.
E pode esperar por mais: a coleção inglesa que agora está sendo publicada no Brasil também traz Hegel, Kant, Foucault, Heidegger e ela, a teoria crítica.









