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Zine desta segunda

O beijo rodriguiano chega aos quadrinhos
Publicado em 17.09.2007 - Jornal do Commercio

Na última Festa Literária Internacional de Parati (Flip), a editora Nova Fronteira lançou simultaneamente uma edição trilíngüe da peça O beijo no asfalto e sua adaptação para os quadrinhos, assinada por Arnaldo Branco e Gabriel Góes. Um dos textos mais famosos de Nelson Rodrigues, que já foi até filme com Tarcísio Meira no papel de Arandir, voltou a ganhar destaque no mercado editorial e, mais uma vez em tão pouco tempo, pudemos ver nas livrarias uma nova adaptação que as histórias em quadrinhos fazem de um clássico literário brasileiro. A lembrar, por exemplo, dos recentes O alienista (Machado de Assis), por Fábio Moon e Gabriel Bá, e A relíquia (Eça de Queiroz), por Marcatti.

A edição de O beijo no asfalto em quadrinhos, é preciso dizer, parece ter saído um pouco às pressas para chegar quentinha à Flip, visto que falta um cuidado editorial – você sente principalmente a ausência de um texto de apresentação à obra rodriguiana.

Observações à parte, a adaptação do cartunista Arnaldo Branco e do ilustrador Gabriel Góes é um ótimo exercício da arte dos quadrinhos. Nelson Rodrigues, particularmente numa peça conhecida por pontuações que fogem à estrutura clássica de um texto teatral, não é o autor mais fácil de se colocar em imagens. Em se tratando de quadrinhos, onde é preciso redimensionar a fala para dar mais lugar à imagem, isso se torna uma tarefa de Hércules. O beijo no asfalto, fora dos palcos, exige um entedimento oral de ritmo próprio, e os artistas que selecionaram os textos e os transcreveram em arte seqüencial souberam lidar com essas particularidades.

O roteiro, dividido em três capítulos (a partir dos três atos em que a peça é escrita), foi bem adaptado e não há qualquer perda de conteúdo em relação à mensagem e à tensão própria da história de Arandir, o protótipo da vítima social em todos os seus níveis. A polícia corrupta, as disfunções familiares e a libido rodriguianas estão aqui representadas numa parábola da manipulação da mensagem.

O desenho, que em vários momentos lembra o traço um tanto xilogravurado de Flávio Colin, não se abre muito para devaneios e, talvez como que para controlar melhor a narrativa da obra original, termina um pouco comportado demais. Ainda assim, não deixa de ser uma percepção própria do que Nelson Rodrigues significa em nosso inconsciente cultural: o traço seco, talhado e cheio de sombras da família brasileira.

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