
Um prazeroso passeio pela Terra do Nunca
Publicado em 01.10.2007 - Jornal do Commercio
Para Alan Moore, o verbo é úmido. Para Melinda Gebbie, as cores são quentes. E no segundo volume de Lost girls que acaba de chegar às livrarias, os dois dificilmente conseguem se saciar nessa combinação de narrativas que, embora possam ser lidas em separado, sempre funcionam melhor quando encaixadas.
E se no primeiro volume, publicado aqui no Brasil pela editora Devir, as páginas iam desvirginando os axiomas da literatura infanto-juvenil, agora elas se abrem em uma contínua e progressiva viagem pela sexualidade feminina e masculina, brilhantemente colocada aqui em paralelo à própria história da humanidade – a lembrar que a história aqui apresentada começa dias antes da explosão da 1ª Guerra Mundial.
Lost girls – as Terras do Nunca é uma seqüência das descobertas sexuais que, na perspectiva de Moore e Gebbie, refazem as narrativas de Alice e seu País das Maravilhas, Dorothy e seus ladrilhos amarelos e Wendy na ilha de Peter Pan. As três são aqui reescritas e redesenhadas do ponto de vista da maior das descobertas infantis: o sexo. Neste álbum, o tema passa quase sempre pelo próprio exercício dos autores em dar suas interpretações de texto. Os personagens refletem uns sobre os outros sempre em visões eufêmicas dos seus próprios desejos.
O álbum, dividido em dez capítulos (do 11 ao 20), tem em seu segundo “ato” uma incrível história entre Alice e Wendy, criada por cima das idéias de livro cujo título se chama Os sete pecados capitais, algo que, para a experiente e vivida Alice, não se passa de um “fraudulento compêndio de ignomínia”. A primeira experiência sexual entre as duas personagens é narrada como uma leitura do subconsciente de Wendy, em referência aos pecados sobre os quais ela acabara de ler. Fica difícil saber se dar mais vontade virar a página depressa para acompanhar o texto rápido e preciso de Moore ou aproveitar ao máximo a arte quase tântrica de Gebbie.
De um jeito ou de outro, saiba que, assim como o primeiro volume e certamente igual ao terceiro e último livro da série, As Terras do Nunca é um deleite antes, durante e depois.