A poética de Persépolis

"Ou as pessoas gostam de escrever ou elas gostam de desenhar. A gente gosta das duas coisas. Nós somos os bissexuais da cultura. As pessoas não acham que é um problema se você é um homossexual ou se você é heterossexual, mas se você é bissexual elas têm um problema com você."
Marjane Satrapi não poderia ter traduzido melhor essa sensação de não-lugar que muitas vezes as artes gráficas e seus autores têm em relação ao rótulo de seu produto final. Graphic novels para os adultos-cabeça, quadrinhos para os pirralhas-preguiçosos. Com público alvo definido, tudo fica mais fácil nas planilhas de Excel das editoras. Marjane, a Marji de Persépolis, seu livro mais conhecido, não se sente confortável com qualquer um desses rótulos. Ela cria histórias com palavras que se fundamentam em imagens e imagens que procuram alento nas palavras. Taí uma definição curta de seu registro profissional.
Desde o ano passado, quando Persépolis estreou no festival de Cannes, onde ganhou o Prêmio do Júri ao lado do diretor Vincent Paronnaud, com quem dividiu a direção e a adaptação de roteiro para o cinema, Marjane se firmou para as massas – até onde vão as massas que assistirão ao seu filme no circuito independente de cinema – como uma exímia contadora de histórias que, não por um acaso, podem ser as dela própria.
A poucos minutos do Oscar, este post é uma declaração de amor a essa primeira grande história de Marjane Satrapi: Persépolis, seja o filme, seja o álbum. O último foi lançado no Brasil primeiramente em quatro volumes pela Companhia das Letras (que recentemente relançou a história em um único volume). Quanto ao filme, este eu vi ontem à noite, de modo que a memória fresca me induz a trocar algumas idéias sobre os 95 minutos de projeção.
Numa época em que o cinema de animação virou sinônimo de grandes efeitos de computação gráfica em 3D, onde tudo é tão perfeito e colorido e engraçado e Pixar e Dreamworks e tudo e tal, Persépolis é um deslumbre de simplicidade. Os desenhos, criados todos em duas saudosas dimensões, saltam na tela em uma constante brincadeira entre o preto e branco. Em vários momentos, particularmente quando se conta uma história dentro da própria história, esses desenhos e suas animações mudam de tom, nos lembrando de antigas técnicas cênicas como o teatro de bonecos. As possibilidades aqui parecem sempre infindáveis e dançam com a história um perfeito pas de deux.
E, em falando dela, a história: tudo que se passa na vida da pequena Marjane Satrapi da complicada dialética infantil do eu (tese), os outros (antítese) e eu de novo (síntese) até a adolescência de guitarras no ar e inevitáveis desilusões amorosas. Tudo isso tendo como pano de funo a Revolução Islâmica e a guerra entre Irã e Iraque, assuntos que foram sempre distantes e estereotipados demais em nossas TVs. O filme cobre todo esse período entre os anos 70 e os dias atuais dentro e fora do Teerã.
De todas as relações que a pequena Marji estabelece na sua incrível auto-biografia, duas em especial pontuam o filme em momentos sempre poéticos: Marji e sua vó, Marji e Deus. O que não deixa de ser a mesma coisa. Vós, como todos sabem, são Deus. Não dá para falar muito, mas se você tiver um pingo de sensibilidade em algum lugar escondido atrás da retina, prepare-se para chorar com os diálogos entre essas figuras.
Sim, voltei a postar. And I hope this time for good.









