Publicado hoje no JC
Guerra Fria em um momento nostalgia
Carol Almeida
calmeida@jc.com.br
Mais uma variação sobre o tema pós-11 de Setembro, só que desta vez com a diferença de um pedido de perdão um pouco menos inflado e um orgulho americano um tanto mais irônico. Não espere nada muito profundo de Jogos do poder (Charlie Wilson’s war, 2007), nem dê atenção demasiada às nadas disfarçadas mensagens políticas (as duas primeiras cenas descartam qualquer possibilidade de discutir este filme seriamente), mas aproveite todos os afiadíssimos diálogos entre os personagens de Tom Hanks, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman.
Aliás, em se falando de Hoffman, nunca antes na história de Tom Hanks e Julia Roberts se viram cenas em que os dois inevitavelmente saíram do foco de luz. Não foi em vão sua indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Quanto aos demais, Julia Roberts volta à cena com um sotaque texano que só não é mais esquisito que a tinta loura de seu cabelo e Tom Hanks, bem, ele é Tom Hanks e desde que o cara cruzou a América correndo ou viveu uma relação afetiva com uma bola de vôlei, isso significa satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.
Depois das já citadas cenas românticas ao lado da bola Wilson, Hanks agora é Wilson, o Charlie, um “homem do congresso”, como se diz nos Estados Unidos, que reverteu a situação do Afeganistão nos anos 80 retirando as tropas soviéticas do país. Tudo, claro, no bom e velho esquema americano de “nada sei, nada fiz” enquanto milhões de dólares eram depositados em armas gentilmente cedidas ao povo afegão.
A história é tão batida do contexto pelo qual os EUA passam hoje que não há como se apegar ao filme por suas intenções políticas, ainda que ele seja baseado na história real de um Charlie Wilson que existiu. Mas não se desanime. Jogos de poder vale a pena por seus diálogos laminados, novamente pela incrível presença de Philip Seymour Hoffman como um espião fora de forma e por toda e qualquer situação na qual onde alguns bons uísques, destilados tão importantes quanto qualquer personagem do filme, entram em cena. Em uma produção que se dá ao luxo de escalar uma atriz do porte de Emily Blunt (O diabo veste Prada, Meu amor de verão) para duas aparições no estilo “piscou passou”, é realmente desnecessário usar bebidas baratas.
A direção aqui é de Mike Nichols, mais conhecido entre os fãs do filme que transformou a música The Blowers daughter numa pandemia internacional: Closer. Bem menos inclinado agora a discutir relações pessoais, Nichols faz um filme honesto nos meios, mas fraco nos fins (ou seja, na tal moral da história). O orgulho de ser americano tem até sua sinceridade, mas os minutos finais de redenção não convencem nem os fãs de Michael Moore.
Aliás, em se falando em mensagens, Jogos de poder traz mesmo de volta um certo prazer juvenil da época da Guerra Fria em usar a palavra “russos” como a grande alegoria do mal. Da época em que era muito mais fácil reconhecer os vilões e os mocinhos.









