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Falsamente indolente, terrivelmente elegante

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Não é de bom tom cobrar da elegância algo que a explique. A elegância é um mérito que se encerra em si mesmo e não deve explicações a ninguém, acima de tudo, por ser um fenômeno muito mais sensorial que propriamente analítico. Mas a jovem (ao menos jovem no campo literário), Muriel Barbery soube em um livro criar a elegância na ética e na estética da literatura. Em seu segundo romance, A elegância do ouriço (Companhia das Letras, R$ 45, 352 pgs.), ela conseguiu dar uma certa razão e moral à palavra, sem com isso destituí-la de sua qualidade primária de beleza que se distancia de qualquer juízo de valor.
Juízo de valor, aliás, é uma expressão-chave nessa história que, a partir de uma curiosa abordagem da fenomenologia, liga duas mulheres em uma trama cheia de ironia, afetividade e, claro, elegância. A reflexiva auto-condenação dessas duas mulheres nos contextos em que vivem é um constante sarcasmo com cânones da civilização (palavra que aqui vira sinônimo para "violência dominada"), suas elites, universidades e preconceitos. São essas duas mulheres: Renée, a concierge de luxuoso edifício parisiense em seus bem lidos 54 anos, e uma menina de 12 anos (da qual só conhecemos o nome na página 260), com uma percepção extraordinária do mundo interno e externo, que calha de morar em um dos luxuosos apartamentos do prédio onde trabalha Renée.
A partir do diário de ambas, mergulhamos (e em salto que parece sempre cair perfeito na piscina) nos pequenos grandes universos das pessoas invisíveis. Algumas delas, como definiria a jovem adolescente ao se referir a Renée, guardam a chamada "elegância do ouriço": "por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes."
Antes da metade final do livro, no entanto, é introduzido à história o personagem que dará forma, ética e esteticamente, a essas duas mulheres: o senhor Kakuro Ozu, novo morador do soberbo endereço nº 7 da Rue de Grenelle. Sua relação com ambas faz com que nasça uma improvável aproximação das personagens centrais e, com este movimento, um notável sintoma de otimismo de Muriel Barbery, ela própria uma professora de filosofia, campo de estudo ao qual faz intensa referência neste livro.
Observação: evite ler as orelhas deste título. Vá direto ao miolo para não perder as felizes surpresas que só o virar de páginas pode oferecer.

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Comments

Carol,

parabéns pelo teu texto. Exprimes, de maneira elegante e justa, o sentimento que tive ao ler a obra de Muriel Barbery, que conseguiu fazer com que eu me reconciliasse com romances (enfim!).

O livro agradará com certeza àqueles sensíveis à beleza da língua, à força da Filosofia e à fragilidade dos seres humanos.

Marcelo

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