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Zine desta segunda: Desista!

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Quando Peter Kuper visitou o Recife, há dois anos, como convidado do Festival Internacional de Humor e Quadrinhos, o Brasil já conhecia um pouco de sua obra com a publicação de A metamorfose, a adaptação em quadrinhos do maior clássico de Franz Kafka. Agora, pela mesma Conrad Editora que lançou A metamorfose, chega o livro Desista! e outras histórias de Franz Kafka. Sim, exatamente isso, Kuper novamente com Kafka (e se você acha esse um trocadilho infame, espere para ler o texto de apresentação do livro, escrito por Jules Feiffer, que já ganhou um Pulitzer por seus cartuns no jornal americano The Village Voice).

Novamente, vemos esse exímio ilustrador americano (cujo trabalho com Spy vs Spy também voltou a ser publicado no Brasil na semana passada com o relançamento da MAD) construindo um universo asfixiante, escuro, estóico, opressor, acimentado, perverso e sarcástico. Ou seja, as melhores e mais nobres qualidades de Kafka. Kuper parece ter sido abduzido pela obra de seu inspirador. E, para quem lê sua obra, isso é um tremendo benefício.

Em Desista! (R$ 19,90, 70 pgs.), o quadrinista traz toda sua experiência como ilustrador para sintetizar alguns contos de Kafka, daqueles mais pessimistas possíveis. As primeiras páginas, que utilizam sempre os títulos dos contos como elementos gráficos (a lembrar das fantásticas primeiras páginas de Will Eisner, mestre e precursor nesse tipo de recurso), introduzem em grande estilo as histórias que são tão curtas quanto angustiantes.

E se é para selecionar alguns dos momentos brilhantes da dupla Kuper/Kafka, é preciso sublinhar as histórias de A ponte, Um artista da fome, O pião e O abutre. Todas nos dão uma sensação de feliz descobrimento de um estranho mundo que há dentro de nós, numa constante impressão de que estamos sendo observados na mais profunda intimidade, quando a loucura se dá ao luxo de nos visitar.

Tudo aqui parece corroborar com a epígrafe usada pelo ilustrador para abrir o álbum: “O livro deve servir como machado para o mar congelado que há dentro de nós.” Por Franz Kafka.

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