Review - Local, Devir

Uma confissão antes de mais nada. Na primeira folheada em Local, assim sem maiores referências à obra, a primeira impressão foi de um estranhamento, para não dizer intuitiva rejeição, aos traços pesados com personagens que parecem ser forçadamente pós-modernos.
Agora, um conselho: esqueçam a primeira impressão, porque Local não é amor a primeira vista, é namoro que leva tempo e, quando engata, fica difícil de deixar. E o que antes parecia um traço pesado, se revela forte e autoral (ainda que inspirado em clássicos pop que você já viu antes), e os personagens antes forçadamente pós-modernos se transformam rapidamente em pessoas que você conhece, vizinhos que, sim, são metidinhos e tal, mas são boa gente.
Os seis capítulos reunidos na edição que a editora Devir lança agora são um pequeno extrato desse mundinho de headphones dos novos errantes, a geração pós-pós-beatniks, de romances que precisam de fantasias para serem reais – sejam elas (as fantasias) músicas ou fotos de polaroid.
Os autores se chamam Brian Wood e Ryan Kelly. O primeiro talvez esteja no repertório de memória do leitor: Wood desenhou em 13 números de Geração X, de Warren Ellis, e levou o Eisner de melhor roteirista pela série DMZ (publicada por aqui pela Pixel). Ryan Kelly, o autor do traço forte deste título, tem uma formação mais voltada para a ilustração, embora tenha participado de alguns quadrinhos ainda não publicados por aqui.
A dupla aqui está em sintonia perfeita. Prova maior disso é quando a história praticamente não usa palavras e você percebe um exercício de roteiro cuidadoso no fluxo dos quadros. Cada capítulo se passa em um “local” distinto e, em comum, têm uma personagem: Megan McKeenan, jovem que cruza os Estados Unidos em busca de algo que não sabemos exatamente o quê. Nem ela. Ou seja, a trama tem todo um cenário indie que agrada em cheio a já citada turminha do headphone (e ao final de cada capítulo, roteirista e desenhista revelam suas playlists para cada história, em alguns casos, uma música para cada página).
Destaque para o primeiro capítulo, um roteiro no estilo Corra, Lola, corra (vários finais para um mesmo princípio) e para o último, pelos cenários e a inconclusiva decisão de nunca parar no mesmo lugar.
Vários textos extras, artes e esboços nas edições originais da americana Oni Press são reproduzidas aqui e dão um charme a mais ao álbum.
(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, 23.06.2008)









