A dupla Jordi Bernet e Carlos Trillo, o primeiro espanhol e o segundo argentino, sabem se divertir quando trabalham juntos. Essa é a primeira impressão quando se lê uma obra assinada pelos dois, particularmente quando se trata de uma história de Cicca Dum-Dum, uma dessas personagens que, por mais que se repita em todos os clichês do gênero femme-fatale, nunca será um assunto esgotado para os fãs. Ou melhor, neste caso, o clichê é fundamental e mesmo (paradoxalmente) original quando é usado por gente que sabe entender na máfia seus elementos eróticos e, claro, cômicos.
Esse primeiro volume de Cicca Dum-Dum, que traz o subtítulo de Desafiando Al Capone, faz parte da coleção Mondo Fetich da Zarabatana e, portanto, está na categoria acima dos 18 anos. Pode esperar aqui um grande pastelão, com referências a vários clássicos do gênero, algumas engraçadas reviravoltas e, claro, muitos quadros em que Cicca usa e abusa de seu poder destruidor, o sexo, em um estilo entre o provocador e o ingênuo. Uma Barbarella entre os gângsters. Só que um pouquinho mais maliciosa.
A história se resume mais ou menos assim: Cicca, uma moça com toda aquela volúpia de descendência italiana, precisou fugir de Chicago para Nova Iorque depois que o amor de sua vida aplicou um golpe em Al Capone. Em Nova Iorque, Cicca pode construir uma nova identidade e é com ela que a moça vai tentar se virar nos 30 para se livrar da perseguição de Al Capone. O que acontece então é que Salvatore, um mafioso em estilo meio almofadinha, decide pedir a mão de Cicca em casamento sem saber, claro, de seu passado.
Dessa estrutura nascem as já citadas cenas pastelão, com destaque para as situações "interrompidas" do guarda-costas de Salvatore e para a "mãe" de Cicca. O fluxo da narrativa é bem direcionada pelo roteiro de Trillo e o traço de Bernet cumpre seu papel de desenhar sem perder o tom de filme b noir. Mas nada que chame realmente atenção.
Os mesmos autores já têm publicado pela mesma editora o álbum Clara da Noite, outra história tendo como protagonista uma moça de intenções nada duvidosas. Naturalmente. Cicca Dum-Dum (o apelido é devidamente explicado em um flashback) tem 68 páginas e custa R$ 30.
(Texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, 25.08.08)
"Em sua primeira edição, o Prêmio Fnac Novos Talentos será dedicado à área de Quadrinhos. Os três primeiros colocados serão premiados com equipamentos e prêmio em dinheiro e terão suas obras publicadas. As obras concorrentes devem ser criadas sob o tema “Infinita Diversidade em Infinitas Combinações”.
O júri desta edição é composto pelo cartunista Angeli, pelo pintor e cartunista Zélio (um dos fundadores do Pasquim e do Salão de Humor de Piracicaba, irmão do Ziraldo) e pela cantora Fernanda Takai (vocalista da banda Pato Fu). A curadoria é de Silvio Alexandre (membro da Comissão Organizadora do Troféu HQMIX). A cada edição do prêmio um padrinho será convidado e “apadrinhará” o vencedor. Ele participará da comissão julgadora e também promoverá um encontro com o ganhador a fim de mostrar como é o dia-a-dia de um profissional da área. Para esta edição foram escolhidos os gêmeos dos quadrinhos, Gabriel Bá e Fábio Moon.
O vencedor será premiado com a publicação de um livro pela editora Devir e ganhará R$ 5 mil, um super computador, monitor, tablet, impressora, scanner, softwares, além de outros materiais que o ajudarão na sua profissão. Os segundo e terceiro lugares terão histórias publicadas na revista Pixel. O segundo também ganhará R$ 3 mil, computador, monitor, tablet, impressora, scanner e softwares. O terceiro ganhará R$ 1,5 mil, tablet e softwares. Também será premiada a escola onde o concorrente está matriculado, que ganhará um computador e uma coleção de 100 títulos de quadrinhos para incrementar sua biblioteca."
Todas as informações e ficha de inscrição pelo site da Fnac
Essa é da seção não-vi-mas-gostei, pelo menos da idéia. A vida secreta dos grandes autores tem texto de Robert Schnakenberg e os desenhos de Allan Sieber para ilustrar histórias e lendas de "celebrities" de sempre tais como William Shakespeare, Edgar Allan Poe, Leon Tolstoi, J. R. R. Tolkien, Jean-Paul Sartre. É como se fosse o E! True Hollywood Story dos grandes gênios.
Entre as curiosidades: Virginia Woolf escrevia suas obras de ficção em pé; Agatha Christie sofria de uma doença rara chamada Disgrafia, que não permite que a pessoa escreva de forma legível, portanto todos os seus romances foram ditados...e por aí vai. Em breve, review.
Existe um trabalho de equipe muito bem sincronizado em O Cabeleira, álbum da Desiderata. Mas já que estamos em época de Olimpíadas, é preciso frisar que, fosse este trabalho uma prova de revezamento, a decisão de escolher o melhor jogador para cruzar a linha de chegada certamente teria um nome: Allan Alex. Embora seus parceiros de prova, Leandro Assis e Hiroshi Maeda, impressionem particularmente por participarem desse esporte (quadrinhos) pela primeira vez, é Alex quem chama atenção. Não apenas porque ele é o desenhista e, com isso, dono daquilo que primeiro observamos nos quadrinhos, sua identidade visual. Mas principalmente porque ele consegue criar um perfil de personagem sem precisar de qualquer tipo de roteiro.
A figura do Cabeleira e de seu pai, Joaquim Gomes, são criações de Alex, mesmo que se argumente a existência desses personagens muito antes dessa história ter começado. Explica-se: Cabeleira é aquela figura lendária das narrativas pernambucanas que, no século 18, muito antes de Lampião, era temido no sertão de Pernambuco por sair matando muitos infortunados que cruzavam seu caminho, não importava se fossem homens ou meninos, mulheres ou religiosos. Se alguém o enganasse ou tentasse roubá-lo, era fumo! Pois bem, com esse perfil em mãos e um roteiro bem cinematográfico de Assis e Maeda, Allan Alex fez muito mais do que reproduzir uma idéia. Ele inventou uma nova. O rosto de olhos alongados do Cabeleira e a expressão reta e pesada de seu pai, o ainda mais cruel Joaquim Gomes, em lugar de ganhar, cedem força ao roteiro. Isso sem contar os demais personagens, como a menina Luisinha e, claro, as fantásticas cenas de luta.
A narrativa é muito bem construída em uma história que cruza duas passagens de tempo – com uma naturalidade própria dos experientes – dando conta da fase adulta e dos dias de criança do protagonista. O já citado aspecto cinematográfico do roteiro não é por acaso. Leandro Assis e Hiroshi Maeda apresentaram originalmente o roteiro desse livro como um roteiro de cinema, baseado no livro homônimo de Franklin Távora, escrito em 1876, e o apresentaram no 8º Laboratório de roteiros de cinema, realizado pelo Sesc. A idéia de transformar tudo em uma HQ veio depois de alguns sábios conselhos. Curioso observar como algumas páginas são, de fato, a seqüência de um filme, precisando muitas vezes usar onomatopéias cujos barulhos, certamente, seriam bem melhor percebidos no cinema.
Na última volta da corrida, com a presença do veterano Allan Alex, a história saiu disparada rumo a uma saída muito bem costurada, deixando qualquer leitor amarrado à trama, por mais indiferente ao tema (sertão/história/crimes) que ele possa ser.
O Cabeleira – Editora Desiderata. R$ 39,90
(Texto publicado originalmente no Jornal do Commercio no dia 18.08.08)
"Eu vi Watchmen. É uma surpresa foda! Assinei um acordo que me impede revelar muito, mas posso soltar o seguinte com um completo orgasmático entusiasmo (na verdade ele escreveu joygasmic enthusiasm): Snyder e companhia conseguiram. Lembram daquele sentimento de assistir a Sin City na tela grande sendo impressionado pela fiel tradução dos quadrinhos originais que era o filme, em termos tanto de conteúdo quanto de visual? Triplique isso e você vai chegar perto à sensação de assistir a Watchmen. Mesmo Alan Moore ficaria surpreso com o quão próximo dos quadrinhos esse filme é. Março não vai chegar cedo o suficiente."
Sinceramente: é um pouco demais imaginar que "até Alan Moore" gostaria do filme. Isso porque Alan Moore não se preocuparia nem em gostar ou não gostar do filme. w.h.a.t.e.v.e.r. Simples assim. Me confesso ainda reticente (seria uma birra sem fundamentos?) com toda essa empolgação e admito que estou me preparando agora para entrar na sala de cinema livre de pré-julgamentos.
A galeria foi criada por Dean T. Fraser que, obviamente, tem um transtorno obsessivo compulsivo em transformar tudo em um boneco dos Simpsons. O blog é sensacional.
Na capa do Caderno C desta segunda, do Jornal do Commercio (acesso com senha do UOL), publiquei uma matéria sobre a procura de artistas digitais para o mercado de games. Infelizmente, como "papel não estica" (palavras do meu chefe), não deu para publicar no jornal algumas imagens legais que meu amigo Alexandre Belém fez do caderno de "anotações aleatórias" de Rael Lyra, artista pernambucano que já fez alguns quadrinhos por aí (aqui no Brasil participou do primeiro volume de Quebra-Queixo e lá fora fez Dragonlance, Jeremiah Harm e até uma curta de Wolverine) e hoje trabalha fazendo concept art na Playlore, empresa pernambucana que, acreditem, está trabalhando hoje com a arte de Star Wars Galaxies, da Sony.
Bem, mas isso tudo é pra mostrar as imagens do caderno de Rael, que são realmente muito lindas:
A editora Desiderata, mais um braço da gigante Ediouro, tem feito um trabalho bastante estimulante na publicação de quadrinhos nacionais. Alguns títulos como a coletânea de adaptação dos contos dos Irmãos Grimm ou mesmo o estiloso O Cabeleira, do qual em breve teremos um texto aqui, são ventos bem-vindos para afastar o terral que muitas vezes sopra para quadrinistas nacionais. E é natural que nesse processo de abrir espaço para a turma mais jovem – e certamente cheia de idéias e personagens novos na narrativa seqüencial – o trabalho de curadoria termine, algumas vezes, errando um pouco a mão na massa.
Estamos falando especificamente da Menina Infinito (R$ 39,90), álbum que, apesar de ter sido lançado em junho, ganha este mês na Bienal do Livro uma nova vitrine. Fábio Lyra, o autor da história, é um carioca de 32 anos que chamou atenção no cenário independente com a revista Mosh!. Dentro dela, se destacava a personagem da Menina Infinito, título para as histórias de Mônica e seus dois amigos, Malu e Pedro. A auto-apresentação de Mônica nas primeiras páginas é um perfil de Orkut: meu nome é fulana, meus filmes preferidos são esses, aqui os meus livros, os quadrinhos e, claro, a lista de músicas que “marcaram a minha vida”, mesmo que a pessoa em questão nunca tenha vivido o tempo em que essas músicas, de fato, marcaram vidas (para esclarecer, Mônica tem neste milênio vinte-e-poucos-anos e cita Iggy Pop, David Bowie e Lou Reed com a autoridade dos outsiders).
Mas o problema, acreditem, não está no perfil da personagem. Fábio Lyra poderia usar da infinidade de clichês que pontuam as gerações e suas tribos para criar um ambiente em que, de fato, se construam identidades. A sensação aqui, no entanto, é de que Fábio é seus personagens e não consegue criar um distanciamento crítico deles. Termina fazendo um álbum que mais parece uma coletânea de musiquinhas indies para conquistar o coração do leitor. Porque tem gente que ainda cai nessa de disco emocionalmente customizado.
Tudo bem, vá lá, Lyra tem um fluxo de idéias interessante e sabe utilizar da seqüencia de quadrinhos para fazer valer seu ponto de vista, seja ele parte de um gueto ou não. Algumas passagens destacam essa habilidade. Mas não há fluxo narrativo que se sustente sem uma construção prévia e muito bem cuidada de personagens. Há algo previsível demais em Mônica, Malu, Pedro e figuras adjacentes. Algo que me faz lembrar em quão fantástico era acompanhar a saga sempre surpreendente dos igualmente "indies" Katchoo, Francine e David, em Estranhos no Paraíso, de Terry Moore.
Só mais uma observação, ou dúvida: por que Mônica e seu namorado vão assistir ao filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças na mesma época em que está em cartaz o filme 300? Existe um gap de dois anos entre os dois. Algo me diz que Lyra estava ansioso em colocar todas as suas referências pop-sentimentais num mesmo lugar.
Se Menina Infinito fosse, então, um bolo, ele teria passado um pouco do ponto. E talvez, de alguma maneira esquisita, esse seja até um elogio ao trabalho de editoria que se arrisca em apostas altas. Espera-se que este selo da Ediouro continue a jogar agressivamente daqui por diante. Afinal de contas, sabe-se que o responsável pelos títulos da Desiderata, S. Lobo, saiu da casa no mês passado. Ciente dos movimentos da Ediouro em comprar a editora mais bem-sucedida em publicações de quadrinhos no Brasil, a Conrad, fica difícil imaginar quais serão os próximos passos em um mercado editorial de quadrinhos cada vez mais agitado. E isso, se imagina, é uma notícia boa.
(Texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, 11.08.08 - bem, na verdade, acrescentei algumas palavras aqui)
Hummm...como dizer isso? A Conrad não vai estar na Bienal, mas vai estar. Pelo visto, a Ediouro fechou mesmo a compra da editora. Embora nada seja oficial ainda (mas daqui a pouquinho em breve vai ser), o negócio está fechado. A Ediouro, como se sabe, é "mãe" também da Pixel, que por sua vez foi formada por uma turma ex-Conrad. Tudo que se pode dizer até agora é: frio na barriga.
Atualização:
Os livros que a Conrad divulga agora na Bienal são:
Revolta da Chibata (review)
Coisas Frágeis
Black Hole 2 (review)
Todo DJ já Sambou – 2ª Edição Atualizada
Sandman – Despertar (review)
Prontuário 666 (review e entrevista)
Calvin – Yukon HO!
Warren Ellis ficou na berlinda há alguns dias quando disse que as revistas de ficção científica estão com os dias contados. A coisa tomou uma proporção tal que começaram a espalhar que Ellis estaria profetizando o fim das publicações impressas (déjà vu). E em um post no seu blog publicado esta semana, ele esclarece:
"Quando todo mundo está balbuciando que é o Fim dos Impressos, os quadrinhos continuam a mover milhões de unidades por mês. No mês passado, escrevi uma história que passou as 100 mil cópias no esquema firm sale (que significa que as cópias não vendidas não retornam à editora). E enquanto é verdade que algumas lojas podem estar emperradas com algumas cópias, outras criaram um sistema que está levando a Marvel a imprimir mais.."
Daí ele segue falando de algumas de suas revistas favoritas, em como elas superam a expectativa de vendas e tudo e tal...e no que diz respeito às revistas de ficção científica, existe algum problema que ele não sabe explicar se está exatamente no conteúdo ou no marketing, mas que existe.
Uma diquinha: não é preciso mencionar a internet, porque isso iria de encontro ao sucesso de algumas publicações impressas semanais ou mensais... mas em se tratando de ficção científica, acredito que o grande arquivo x da questão é o velho e bom faça-você-mesmo. Na verdade, tem algo de errado com as revistas impressas cujo conteúdo não é suficientemente fantástico para te convencer que você, zé mané viciado, não possa fazer melhor.
Entre os indicados deste ano ao super tradicional Hugo Awards, o maior prêmio de ficção científica deste e de outros planetas imaginados, está o romance Brasyl, de Ian McDonald, um livro que, nas palavras do próprio autor, "se passa no Brasil, mais especificamente São Paulo de 2032, e também no Brasil de 1732, pouco antes da expulsão dos jesuítas do país. O livro fala de como a computação quântica abre múltiplos universos paralelos"... Ok, nada exatamente inédito para quem curte o gênero, mas o mérito aqui parece mesmo estar nas qualidades narrativas do autor. O bom mesmo é imaginar São Paulo como na capa do livro, daqui a 24 anos. Viveremos para ver?
"Ela é fã de Amélie Poulain, gosta de cinema, mas nada excessivamente cabeça ou pipoca demais. Consume cartuns da Mafalda e do Calvin e conhece cada subgênero das bandas de pop rock da atualidade." A definição do release pode até confundir Mônica com figurinhas hypes como Clara Averbuck ou, sei lá, qualquer estudante de jornalismo aspirante a repórter da TPM...mas se trata de uma tentativa de Fábio Lyra em fazer algo mais "gente como a gente" (como eu não cara pálida...) em quadrinhos. Ok, ainda não li, mas em breve teremos uma review desse álbum que, na verdade, já faz um tempinho que foi lançado e que será o grande destaque da editora na Bienal.
Ainda da Desiderata e novamente outro título que já está à venda desde junho, tem também O Cabeleira, de Leandro Assis, Hiroshi Maeda e Allan Alex. A história é um resgate dos mitos que cercaram a figura do tal Cabeleira, um bandoleiro celebrity em Pernambuco em meados do século 18. Os quadrinhos são uma adaptação do livro de Franklin Távora, de 1876.
As tags são hip hop, punk, grafite, skate, DIY e...quer saber? esqueçam as tags porque esse é um filme justamente sobre o problema de ter uma tag. Estréia esta sexta em algum cinema em NY city. E em breve em algum lugar da web...alguém aí falou torrent???
Enquete sem enquete: are you a regular freak or a cool freak?
A editora está com dois lançamentos importantes para o evento: Dr. Bubbles & Tilt e O Garoto Verme. O primeiro é o volume 1 de um título NACIONAL de Tulio Caetano, um cara que nasceu em Goiânia, se formou em Brasília, se pós-graduou na França (Angoulême para ser específica) e voltou ao Brasil no ano passado para escrever a história de Dr. Moritz Bubbles, um "eminente geneticista que trabalha em uma secreta e subterrânea seção da gigante multinacional Genetechx, e seu encontro com Tilt, um junkie sem esperança nem ambição, que vive mergulhado em delírios químicos embalados pela TV de seu sórdido apartamento." Tulio estará na Bienal, autografando no dia 23, às 14h. O livro custa R$ 39.
"Haverá um i-11 de Setembro." De fato, a tradução não ajuda. Portanto: There’s going to be an i-9/11 event. Essa foi a frase que todo mundo gravou na conferência Fortune’s Brainstorm Tech, na Califórnia. A autoria é de ninguém menos que Lawrence Lessig. Segundo ele, esse "evento" funcionará como um ato catalizador para um reposicionamento radical das leis que regem a internet. Lessig não é exatamente Nostradamus, mas suas opiniões sobre o futuro de daqui a 5 anos, meses, dias ou mesmo minutos, costumam ser bastante consideradas. E quando ele fala uma coisa assim, pode esperar pelo tsunami...porque ele vem, mais cedo ou mais tarde.
Ral, o maioral, o genial, o que não cabe em uma rima trivial. Em lugar de uma charge, ele fez uma história em quadrinhos, não apenas ressuscitando a Graúna, como o seu Boi Misterioso.
Anote aí na agenda: 9 de agosto, próximo sábado. A data em que George Orwell entra oficialmente na web (e claro que não estamos falando das entries do wikipedia). A partir deste sábado, o diário de Orwell será postado como um blog. A lembrar que esses diários foram escritos até o começo da Segunda Guerra Mundial e pegaram também a época em que Orwell viajou para o Marrocos, suas doenças e as feridas que ele teve quando lutou na Guerra Civil Espanhola.
Já se passaram mais de dez anos desde aquela triste, porém compreensível, cerimônia de despedida. E como no tempo dos imortais, de linha sem pontas, a sensação quando hoje lemos novamente seu posfácio para a saga de Sandman, é de que esse tempo, ainda que em uma minúscula década, pode ser muito generoso com os seus filhos mais nobres. Despertar, a última das sagas de sua, admita, autoprojeção bastante otimista, não podia ser hoje ou amanhã, mas somente naquele tempo em que tudo foi feito, do jeito em que foi feito. E ponto final. Antes de ser uma saudade, é um consolo saber como o senhor soube ceder às demandas de seu personagem central, o Lorde Moldador, o Morpheus egoísta e um tanto adolescente que, após todos esses anos e mesmo depois de morto, parece ter amadurecido ainda mais diante de nossos olhos e nossa mortal percepção da abstração.
O senhor, ainda que num tempo de linha sem pontas, soube criar uma obra que, para uma confessa surpresa geral, soube se fazer muito bem costurada em uma infinidade de personagens. Imortais, animais ou humanos aos quais nos apegamos ou mesmo abnegamos nos momentos de completa imersão na ficção que, por méritos de uma incrível hipertextualidade com os vários campos das ciências humanas, nos parecia muito verdadeira. Não real, mas verdadeira. Ou nas palavras de sua colega de gênero literário, Ursula K. Le Guin, “a verdade é uma questão de imaginação.” Agora, talvez até mais do que antes, dá para entender que imaginação foi não apenas sua matéria-prima, como também seu desejo, desespero, destruição, delírio, destino, sonho e, finalmente, sua morte.
Mas uma idéia, como explicaria Caim, não morre. O que morre, diria Abel, é um ponto de vista. Daquele ponto de vista, senhor Gaiman, nos despedimos. Ainda que relutantes. Afinal de contas, não é fácil ser órfão de um sonho. Mesmo que ele tenha sido um tanto convencido demais (ato falho de um autor que se compara a Shakespeare?), ou cruel com algumas de suas amantes, é fato que houve afeto entre nós. E a memória agora é uma gratidão por esse ponto de vista.
Morpheus morreu por um motivo razoável que é muito bem elucidado nas sábias palavras de Lucien, o bibliotecário de todos os conhecimentos: “Às vezes, talvez, é preciso mudar ou morrer. E, no fim, talvez houvesse limites para o quanto ele podia se permitir mudar.” Ficou Daniel, o novo Senhor dos Sonhos. Quem sabe, 12 anos após a última edição de Sandman, não seria o momento de Daniel mostrar o seu ponto de vista?
» Despertar – Conrad Editora, R$ 69,90
(Texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, 04.08.2008)