Existem mil e uma maneiras de elogiar Alan Moore. Mas independente da forma, há sempre um ponto consensual em todos os textos sobre ele: seu domínio sobre a linguagem dos quadrinhos. A forma como Moore doma suas histórias prova que existe ali uma combinação rara de alguém que, além de ter a herança cultural do senso de humor britânico (leia-se: ácido), soma um conhecimento incrível sobre a própria história das histórias em quadrinhos. Tendo isso posto, sim, o assunto aqui é o último volume da série com o heróico Supremo, a quem muitos chamam de "homenagem" ao Super-Homem, mas que, venhamos e convenhamos, trata-se mesmo de uma grande e muito bem armada sátira a toda a indústria dos super-heróis e particularmente da DC Comics.
Supremo, A Era Moderna (quarto e conclusivo volume da série que teve A Era de Ouro, de Prata e de Bronze), chega agora pela Devir editora. O álbum de 136 páginas coloridas nos traz de volta aos bons tempos de roteiros completamente insanos, quando alguns escritores resolveram sair quebrando barreiras de tempo e espaço para falar de universos paralelos, física quântica e outros fenômenos que só mesmo as revistas especializadas em ciência se dedicariam com tanto afinco. Pois bem, coloque tudo isso nas mãos do cara que escreveu Watchmen e você terá uma seqüência alucinante de referências muito bem-humoradas a toda trajetória das histórias em quadrinhos dos super-heróis.
Em A Era Moderna, Moore novamente usa e abusa das combinações tempo-espaço (fórmula esta que, não coincidentemente, está na base da definição narrativa do que são os quadrinhos) para brincar primeiro com o vilão Darius Dax (o Lex Lutor), a mocinha Diana Dane (Louis Lane) e com Radar (Krypto, o Super Cão), sendo este último o protagonista de um dos capítulos mais hilários deste álbum com algumas das melhores frases já escritas dentro dessa estranha combinação de cachorros e capas vermelhas.
É preciso salientar também que o trabalho dos desenhistas aqui é essencial para passar aquela idéia meio caótica das quebras de tempo e espaço. A coloração retrô de algumas passagens de tempo e a enorme diferença de traço entre histórias tão próximas dão uma sensação vertiginosa quando você decide ler tudo de uma vez. Tal como Alan Moore deve ter projetado em sua cabeça perturbada e, claro, genial.
Balões geniais:
"Já cuidei de departamentos de marketing mais durões que vocês" Diana Dane, ao derrubar com um chute nas partes mais doloridas de Baxter Frunnt
"Supremo? Você gosta de mim?
Ah... Sim, eu gosto.
Uh-Hum. E, quando gosta de uma garota, você sempre a leva pra passear em mundos, épocas e dimensões diferentes pra chamar a atenção dela?
Hã. Bem, na verdade, sim." Conversa entre Diana Dane e Supremo
Agora, o diálogo entre um super-herói e seu cão de estimação::
"Ok, Radar... em nome da nebulosa, o que você estava pensando? Eu te conheço desde pequeno. E, de repente, descubro que você virou um labrador libertino! O que deu em você?
Eu...Eu decidi que gostaria de cruzar, mestre. Eu jamais havia feito isso antes. Conheci um belo galgo fêmea nos subúrbios de Omegapolis. É claro que, com a velocidade suprema, nossa relação durou apenas um quarto de segundo, mas pareceu significar algo naquele momento. Foi muito prazeroso. Então, pensei em repetir a dose só mais uma vez. Dessa vez foi com uma pitbull marrom, orgulhosa e impetuosa, perto do lago. Depois disso, receio ter perdido o controle..."
E-mail de Jarbas Domingos, o menino que não cansa de ganhar prêmios por aí:
"Gostaria de compartilhar uma boa notícia, tive a felicidade de ser Premiado com o primeiro lugar no 1º Salão Internacional Pátio Brasil de Humor Sobre Meio Ambiente em Brasília. Para a seleção e premiação das 290 obras recebidas foram obedecidos critérios de criatividade, originalidade e pertinência com o tema proposto, AQUECIMENTO GLOBAL. Participaram do concurso desenhistas de todas as regiões do Brasil e dos países: Alemanha, Ubesquistão, França, Eslováquia, China, Estados Unidos, Uruguai, Azerbaijão, Ucrânia, Istambul, entre outros."
Aqui, o fotoblog do rapaz e abaixo o cartum premiado:
Na introdução assinada por ninguém menos que Warren Ellis, há de cara uma referência saudosa às boas séries de investigação da TV inglesa. Ellis usa a produção televisiva do Reino Unido como um interessante contraponto à produção criativa dos quadrinhos britânicos. Sustenta ele que, quando os roteiros de TV começaram a decair por lá, os de quadrinhos começaram a ganhar corpo e respeito. Tudo isso para chegarmos no ponto de Jogos de poder – operação: Terreno Partido, história de Greg Rucka.
O primeiro volume dessa história foi publicado originalmente em 2001 (e escrita antes do 11 de Setembro). É nesse ambiente ainda em suspenso e no entanto já pautado pelo terrorismo que a história se desenrola, em um ritmo tão fascinante de se ler quanto aquela série de TV que você simplesmente não pode perder um episódio sequer. Há algo folhetinesco (leia-se viciante) na maneira como Rucka escreve suas histórias (a mesma vibe você pode sentir no premiado Whiteout, que chegará ao cinema no ano que vem) e, em se tratando de um roteiro com conspirações, espionagem e aquele jeitinho um tanto vaidoso e quase displicente de os ingleses tomarem o chá da tarde, aí sim fica impossível largar fácil essa história.
Na primeira página, a introdução dos personagens segundo a hierarquia de seus postos dentro do Serviço Secreto de Inteligência britânica (SIS). Na segunda, um plano aberto com uma mapa mundi no painel de um grande escritório, indicando alguém perdido (e possivelmente em perigo) em algum ponto do planeta. Daí em diante, entendemos que temos dois personagens preciosos nessa história: Paul Crocker e Tara Chase. Ele um diretor de operações, ela a operação em si, de armas em punho. Paul é o que melhor sabe mandar e Tara a que melhor pode obedecer. E nesse mapa mundi confuso em definir a geografia do inimigo, personagens multidimensionais como esses dois ratificam aquela sensação de que a gente só acredita que as coisas vão dar certo porque, em algum lugar, os heróis, imaginamos, devem existir. Bem, não é exatamente o que acontece aqui. E é por isso que não dá vontade de desligar a TV. A possibilidade do erro vem sempre antes do clímax na dramaturgia clássica da civilização.
Para checar algumas das imagens desenhadas por Steve Rolstron, o site da editora Devir dá uma preview de três páginas.
Galeria com várias páginas em quadrinhos de Steve Rolston (incluindo algumas de Jogos de Poder)
Site oficial de Greg Rucka
Pois fiquem sabendo que os Smurfs completam em outubro agora 50 anos!!! 50 anos de Papai Smurf e cia! O fato é que o aniversário dos azuzinhos está sendo motivo para se realizar uma competição de como pintar melhor um Smurf. O vencedor da melhor pintura ganha um pacote cheios de smurfices....(ainda não entendi exatamente no que isso consiste).
Aproveitando a deixa...depois do Mickey Feio, por que não um Smurf Feio? Fica a dica.
O Movie Web publicou hoje sua matéria sobre o making of de Coraline, o filme em animação adaptado do romance de Neil Gaiman. No texto, todos os jornalistas convidados pela equipe do filme parecem impressionados com a técnica de realização, que mistura stop motion com a computação gráfica em 3D já conhecida de todos nós. O filme estréia nos Estados Unidos em fevereiro de 2009. Abaixo, uma sneak peek do filme.
"I am disappointed, Veidt. Very disappointed. Reconstructing myself after the subtraction of my intrinsic field was the first trick I learned."
Todos os demais personagens dos quadrinhos e, portanto, do filme, podem ser vistos no Flickr de Artpoly, o talentoso desocupado que está recriando tudo em Lego (incluindo de outros filmes-quadrinhos). Aliás, Mr. Freeze está uma coisa...
Tudo isso, naturalmente, faz parte da contagem regressiva para o filme, naquele esquema de marketing bem pesado que todos nós já conhecemos. Lembrando que a previsão de estréia aqui no Brasil é dia 9 de março. Até lá, ttantos outros posts virão...
Durante toda esta semana estarei dando aulas sobre as diferentes estruturas de roteiro em histórias em quadrinhos. O convite foi do pessoal da Conteúdo Criativo, que promove uma semana de aulas sobre diferentes assuntos, geralmente ministrados por jornalistas.
Esta semana, as aulas são sobre os limites de uma identidade própria nos quadrinhos, as ligações com o cinema, prática da criação de um roteiro e, claro, a história dos grandes roteiristas.
A Conteúdo fica na rua das Pernambucanas, 144 - Graças. O curso custa R$ 220, são 12 vagas, 15 horas aulas (das 18h30 às 21h30), com certicado. Inscrições pelos fones 30760380 / 96660688 / 96860446.
Atualização: possivelmente, o curso terá que ser adiado para a próxima semana (ou ainda a semana seguinte). Informações pelos fones acima.
Um pequeno exemplar da magnífica arte de Geof Darrow.
Não tem boquinha não, o caso aqui é mesmo de murro na cara ou, para ser um pouco menos gentil, porrada. Hard boiled, a série com roteiro de Frank Miller e os desenhos incríveis de Geoff Darrow, finalmente é publicada no Brasil com uma história inteira. Explica-se: em dezembro de 2002, a Pandora Books lançou a primeira parte de Hard Boiled - à queima roupa, mas terminou não concluindo a edição, deixando os leitores na mão, como era de praxe acontecer no Brasil. Agora, a Devir lança o mesmo À queima roupa do começo ao fim da história, te deixando na última página com a sensação de que algum trator acabou de passar em cima de você. Machuca, mas vale a pena.
Uma breve sinopse: no ano de 2029, na cidade de Los Angeles, caos é uma palavra bonita e talvez até romântica para definir a situação nas ruas. Para completar o cenário de desastres, andróides são programados para matar primeiro e perguntar depois, ou melhor, perguntar pra que? Bem, é nessa situação que conhecemos Carl Seitz, cuja real identidade responde pelo nome de Nixon, mas essa história é melhor entender lendo. O fato é entre as cenas de violência extrema e mesmo grotesca (a vibe Frank Miller em versão sem escrúpulos), você termina descobrindo que o personagem central é vítima de um complô daqueles que coloca em questão o dilema homem x máquina.
Não é de se estranhar que Geoff Darrow seja o cara por trás da direção de arte de Matrix, filme que veio alguns anos depois do lançamento de Hard boiled. Aliás, em se falando em Darrow, impossível falar deste trabalho sem frisar que é dele o grande mérito desta obra. As páginas são pequenas para o tamanho e detalhismo de sua arte e a estética punk (bem como sua ética) nunca conseguiram ser tão bem representadas. Uma diversão à parte é ficar um tempão em cada página, observado as sutis piadas e dezenas de referências pops que Darrow faz com seu desenho. Trata-se de um artista que não tem medo de planos abertos e muito menos de cenas em movimento, dois dos grandes desafios para um bom desenhista de quadrinhos.
Considerando que este ano o próprio Frank Miller anunciou que quer adaptar Hard boiled para o cinema (depois de Sin City e do atualmente em produção Spirit, ele parece ter tomado gosto pela câmera), é de se esperar muita pancada vindo por aí, naquele bom e velho estilo Tarantino. Possivelmente, será mais uma adaptação desnecessária, até porque algumas obras se encerram em sua própria linguagem, sendo meio e mensagem ao mesmo tempo. Criar cenários reais depois de imagens tão fortes como as de Darrow é esvaziar o sentido de uma idéia.
Aliás, um pouco da arte impressa nas 128 páginas de papel cuchê pode ser visto no site da Devir.
Página dupla do álbum (só pra ter a dimensão do nível de detalhismo de Darrow). Link do trabalho de Darrow para os irmãos Wachowski.
Lisa Katayama, do TokyoMango, postou esta semana algo que, ainda que ciente deste nosso mundo bizarro, conseguiu me surpreender: venderam pelo Yahoo japonês 20 exemplares "VIVOS" de PIKACHUS!!!! Os bichinhos renderam tão-somente 925 MILHÕES de dólares. Olhem só o depoimento dos vendedores:
"Nós capturamos cada um depois de seus pedidos, portanto garantimos a saúde deles! Esses são Pikachus retirados diretamente da floresta Pikachu, portanto eles têm uma qualidade superior àqueles achados em outras regiões."
Não sei ainda exatamente que bichos (parecem hamsters..) eles pegaram pra transformar em Pikachus, mas isso só pode ser uma grande malvadeza...e uma fonte de renda incrível.
Vejam só vocês como são as coisas. Há seis anos, o colega Sidney Gusman (Universo HQ), também conhecido como Sidão, em uma conversa informal na pequena feira de quadrinhos do FIHQ pernambucano, chegou com os dois primeiros volumes de Predadores na mão garantindo que ali estava uma obra imperdível. Compra efetuada. Aliás, nessa época, Predadores se chamava Rapaces, na edição portuguesa da editora Meribérica. Já naquela época, a história chegava ao Brasil com um retardamento de quatro anos, tendo em vista que os quadrinhos foram lançados mesmo em 1998, na França. Some tudo e perceba que, somente 10 anos depois de sua primeira publicação, é que Predadores finalmente é editado no Brasil, pela Devir Editora.
Portanto, com o delay de uma década, eis que finalmente aqui se pode escrever sobre essa obra-prima de Jean Dufaux e Enrico Marini, roteirista e desenhista de Predadores. Trata-se de mais uma releitura de toda a mítica vampiresca, só que com o benefício de uma trama que é, de fato, bastante original em sua abordagem. Sem contar extremamente sexy, qualidade imprescindível a uma boa história de vampiros.
O enredo, para não antecipar muito as boas surpresas, tem quatro personagens centrais: os dois irmãos da capa, Drago e Camilla, o jovem Aznar Akeba (que no primeiro volume passa de relance, sendo introduzido apenas no segundo álbum) e a detetive Vicky Lenore, que serve como a linha narrativa da trama. É Vicky quem começa a história trabalhando em, aparentemente, mais um caso de crimes seriais. Naturalmente, intuitivamente você já sabe que Vicky ainda não sabe que é só isso. O serial killer, logo se descobre, não é uma pessoa comum, mas os dois irmãos, Drago e Camilla.
O tom policial do roteiro de Dufaux sustenta com muita firmeza aquilo que com outros roteiristas costuma ganhar ares mais de RPG do que de quadrinhos propriamente dito. Os dois primeiros volumes que saem simultâneos pela Devir estão longe de desvendar o verdadeiro mistério da trama e de que maneira os personagens, sem saber, estão entrelaçados. Algumas pistas, no entanto, já escapam, tais como a origem dos erráticos Drago e Camilla e ligação de Vicky com as vítimas que ela investiga. Os desenhos de Enrico Marini merecem igual destaque. Como bom italiano que é, Marini dá uma especial atenção a anatomia de seus personagens, particularmente das moças, volta e meia seminuas...afinal de contas, essa é uma história de vampiros.
Cada álbum está sendo vendido por R$ 29 e a série só se encerra em seu quarto volume.
(Texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, 08.09.2008)
obs.: depois de um tempo fora em função de um caderno especial, estou de volta, tentando achar minha review no jornal da semana passada, que aparentemente sumiu...o jeito será copiar do papel)